Fragmentos de uma cerâmica reparada, com linhas douradas destacando as fissuras

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O objeto quebrado nem sempre perdeu seu valor

Há uma ideia silenciosa por trás de muitos objetos que descartamos: se algo quebrou, deixou de ser o que era. A rachadura aparece como uma sentença. A peça perde a aparência de inteireza e, com ela, parece perder também o direito de continuar na nossa vida.

Mas uso e integridade nunca foram exatamente a mesma coisa. Uma cadeira pode guardar a forma como alguém se sentava nela. Uma xícara pode carregar o café de muitas manhãs. Um aparelho pode continuar sendo útil mesmo quando uma peça pequena parou de funcionar. O defeito não apaga automaticamente a história, a função ou o vínculo que um objeto acumulou.

No ensaio sobre cerâmicas restauradas com laca, Y. Shinoda descreve o reparo japonês com urushi e observa que, durante os períodos Momoyama e Edo, entre 1573 e 1868, consertar cerâmicas danificadas provavelmente era uma prática comum. Exemplos preservados sugerem que a restauração com laca dourada pode ter se tornado mais frequente no século XVI, embora a falta de evidência histórica impeça uma conclusão definitiva sobre a origem do método.

Isso também pede cuidado com a palavra kintsugi. Shinoda observa que o termo não parece aparecer nos diários de chá e registros de objetos célebres, os meibutsu. Os reparos eram registrados como tsugi, junção ou remendo, e tsukuroi, conserto. O nome contemporâneo é útil, mas não deve transformar uma história complexa em um cartão-postal.

Mãos trabalhando em uma peça cerâmica quebrada sobre uma bancada

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Quando reparar se torna uma exceção econômica

O problema contemporâneo não é apenas que esquecemos como consertar. É que, muitas vezes, consertar foi colocado fora da economia cotidiana. Peças não estão disponíveis, manuais não são oferecidos, a assistência autorizada custa quase o preço de um produto novo e a desmontagem foi desenhada como obstáculo.

Nesse cenário, comprar de novo parece racional mesmo quando não é a melhor escolha material. O preço de um aparelho novo aparece na vitrine; o custo ambiental da extração, da fabricação, do transporte e do descarte permanece espalhado por toda a cadeia. A decisão individual chega depois de uma série de decisões de projeto que ela não controla.

O Global E-waste Monitor 2024 estima que o mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, um aumento de 82% em relação a 2010. O relatório projeta 82 milhões de toneladas em 2030 e registra que apenas 22,3% do volume de 2022 foi formalmente coletado e reciclado. Menos de 1% da demanda por elementos de terras raras foi atendida por reciclagem.

Entre os fatores que o relatório associa à ampliação dessa distância estão as opções limitadas de conserto e os ciclos de vida mais curtos dos produtos. Também entram o aumento do consumo, falhas de design que dificultam a desmontagem e infraestrutura de gestão inadequada. Reparar não resolve sozinho o problema do lixo eletrônico, mas a impossibilidade de reparar torna a vida útil uma decisão cada vez menos nossa.

Peças eletrônicas, ferramentas e um pequeno objeto aberto para manutenção

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O reparo começa a entrar na regulação

O direito ao reparo não é apenas uma preferência de consumidores cuidadosos. Ele envolve informação, acesso a peças, desenho de produtos, responsabilidade de fabricantes e uma distribuição mais honesta dos custos de manter as coisas em circulação.

Na União Europeia, a Diretiva (UE) 2024/1799 cria regras comuns para promover o reparo de bens e altera a relação entre garantia, assistência e vida útil. A direção é importante porque desloca a conversa: o produto não termina necessariamente quando a venda termina, e a escolha de comprar outro não pode ser a única solução oferecida ao consumidor.

No Brasil, o Decreto nº 10.240/2020 organiza a implementação da logística reversa de eletroeletrônicos de uso doméstico. Os dados divulgados pelo SINIR registram 1.960 toneladas recebidas em 2021 e 19.959,55 toneladas em 2022. Esses números ajudam a dimensionar a cadeia de recolhimento, mas também mostram que reciclar depois do descarte não substitui projetar para durar, abrir, manter e reparar.

Regulação não transforma automaticamente uma oficina em serviço acessível. Ela pode, porém, mudar as condições que fazem do reparo uma exceção: exigir informação, tornar peças e ferramentas mais disponíveis, reduzir assimetrias e impedir que a obsolescência seja tratada como inevitável. A lei começa uma conversa que precisa continuar no projeto, no comércio e na assistência técnica.

Bancada de reparo com ferramentas manuais, parafusos e uma peça restaurada

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O que Victor Lemos vê nessa mudança

O que me interessa no reparo é a recusa de uma ideia muito confortável: a de que o novo é sempre mais desejável e o quebrado é sempre um atraso. Consertar devolve tempo às coisas. Também devolve uma pergunta às pessoas: o que ainda pode continuar, se houver acesso, paciência, peça, conhecimento e vontade?

Isso não é uma defesa romântica de guardar tudo. Nem todo objeto merece ser preservado, e nem todo conserto é seguro, barato ou possível. Há momentos em que substituir é a decisão mais sensata. O ponto é não confundir essa decisão com uma liberdade que nunca existiu. Quando não há manual, peça, assistência ou preço viável, o descarte não é uma escolha plenamente aberta.

O reparo também muda a relação entre cultura e infraestrutura. Kintsugi pode oferecer uma imagem bonita para pensar a marca da passagem do tempo, mas a política do conserto precisa ir além da metáfora. Ela passa por parafusos, diagnósticos, oficinas, renda, transporte, normas, resíduos e desenho industrial. A beleza da emenda não pode esconder a política que decide quem terá acesso a ela.

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Talvez consertar as coisas tenha ficado tão difícil porque aprendemos a chamar de destino o que foi projetado como escolha. Recuperar essa escolha não significa voltar a um passado sem desperdício. Significa construir um presente em que durar, abrir, cuidar e reparar voltem a ser possibilidades concretas — e não gestos de resistência feitos apenas por quem já sabe como fazer.

Fontes e referências

Victor Lemos — Jornalista, Autor e Estudante de Medicina

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